quarta-feira, 26 de março de 2014

Estudos anatômicos #1

Já faz um tempo que estudo anatomia humana e desde que assisti minha primeira aula no laboratório da universidade me faço uma pergunta: eu posso ou não compartilhar os desenhos de observação que foram feitos a partir de cadáveres (ou de partes do corpo)?

Isso me instigou por muito tempo por diversos motivos, dentre os quais eu posso citar a veracidade das imagens, a ética que existe por trás desse trabalho e o respeito aos corpos que serve de estudo. Esse último é um ponto importantíssimo, algo que aprendemos no primeiro dia de aula: é terminantemente proibido brincar com os corpos, fazer piadas ou fotografá-los, sujeito a pena de ser reprovado na disciplina e até de ser jubilado.

Mas de todas as questões, acho que a que mais me fez não mostrar nenhum desses trabalhos talvez tenha sido o fato de que sempre que eu falava para as pessoas que o meu estudo era sério e que eu fazia (ou tinha feito) aulas de anatomia artística com corpos de verdade, a reação era sempre a mesma: uma cara franzida seguida de um "credo!", quando não de um "nossa, que nojo!". As pessoas sempre acabavam achando o trabalho muito forte e até repulsivo.

Claro que nem todos os desenho são extremamente naturalistas (ou realistas, como popularmente se fala), mesmo porque eles são um tipo de estudo e, sendo assim, alguns detalhes em alguns momentos não são importantes de serem representados. Mas outros realmente são bem fortes para quem tem estômago fraco. E o engraçado é que sempre que eu os mostro para alguém que fez essa mesma disciplina comigo (ou não) na universidade, eu sempre escuto algo do tipo: "cara, eu lembro desse cadáver... Eu também estudei com ele...".

Então o primeiro desenho que escolhi para compartilhar foi o de um dos corpos mais usados no laboratório, "o mais perfeito para estudo que eu já vi", nas palavras da professora que já tinha mais de vinte anos de profissão.

"Estudo anatômico", grafite sobre
moleskine, 2011.

Lembro que esse foi um desenho dos que fiz na minha segunda vez na disciplina, não mais como aluno, mas como monitor, já no finzinho do meu curso. Eu aproveitei que não haviam muitos outros alunos por perto, que a posição estava boa e que a perspectiva, a pesar de difícil, ficaria muito bacana depois de terminado o trabalho. Então não perdi tempo e aproveitei cada minuto da aula bastante concentrado. O resultado foi o mostrado acima.

Eu não me recordo se fiz ou não alguns ajustes na imagem depois que saí da aula, mas eu acho que não. O que sei é que, ao contrário do que se pensa, alguns corpos apresentam sim a pele do rosto, desmistificando a ideia de que nenhum deles pode ter o rosto reconhecível. Mas, pelo que sei, a maior parte dos corpos usados nas aulas só começa a ser utilizada depois de alguns anos que estão por lá. Entretanto, sempre rolam algumas histórias de alunos que durante uma aula reconheceram o cadáver (ou a parte dele) que estava sendo estudado! Se isso é verdade eu não posso afirmar. Mas acredito que se isso aconteceu mesmo, o momento não deve ter sido um dos mais tranquilos para quem estava vivo...