sexta-feira, 6 de abril de 2012

Primeiro estudo para descorticar crianças


Este poderia ser mais um daqueles trabalhos a entrarem na retrospectiva no início deste ano. Mas como ele não fazia parte da categoria de trabalhos “perdidos” ou esquecidos, eu acabei deixando para postá-lo em outro período – no caso, agora.

Quando, no ano passado, eu postei dois trabalhos sob o título “Estudos para descorticar crianças”, este desenho já estava pronto. Na verdade, foi a primeira criança a ser descorticada, algo que gostei muito de fazer, pois foi um processo diferente da descorticação de um rosto adulto e que gerou um impacto diferente nas pessoas que observavam o resultado final. Mas o que eu gostei mais não foi o fato de ter sido uma criança, e, sim, de ser um negro desenhado em grafite.

A pele negra tem uma beleza ímpar que necessita de alguns cuidados especiais durante o desenho. Eu descobri que é preciso ter um controle absoluto da técnica para não borrar ou estragar o trabalho durante o processo, pois quando se utiliza lápis extremamente macios – acima do 6B –, até olhar de mau jeito para o desenho pode borrá-lo. Para quem não tem ideia do que é isso, posso afirmar que depois de algumas horas de dedicação, passar o dedo ou a mão em cima do papel e perceber aquela mancha saindo do rosto para o fundo do papel, ou juntando o sombreado da sobrancelha com o branco do olho, por exemplo, não é nada agradável. A primeira coisa que passa pela cabeça é: “putz, eu merecia uma eutanásia agora!” Mas como isso é demais, pensamos em jogar o caderno fora. Como isto também é demais, pensamos só em rasgar a folha. E como isso não é possível de ser feito em cadernos costurados (além de que deixaria o caderno incompleto), também não o fazemos. Só resta xingar e ficar puto consigo mesmo depois da besteira feita. (Já fica aqui a dica para quem está olhando um sketchbook ou um desenho qualquer: jamais toque no desenho, nem que a curiosidade esteja te matando! Pegue apenas no cantinho do papel para que a gordura natural do seu dedo não estrague o trabalho do coleguinha.)

Eu até lembrei-me do meu professor de gravura comentando sobre o trabalho de impressão, dizendo que depois de 40 minutos imprimindo uma xilogravura a mão, com toda a paciência do mundo, chegar ao final e encontrar uma protuberância ou imperfeição na matriz que faz rasgar o papel é algo tão estressante que daquele momento em diante, o seu dia acabou; pode ir fazer outra coisa tipo lavar uma pilha de louças sujas ou varrer o quintal, porque qualquer tarefa artística depois do trauma dará errado!

Digressões a parte, o que importa disto tudo para mim é que hoje, quando olho o estudo acima, já não sinto mais a mesma empolgação da época que o fiz, pois, como deve ser, eu já consigo observar muitos detalhes que faria diferente. E isto, de enxergar o que passou sob um olhar crítico que permite futuras mudanças, é o mais importante, seja na arte, seja na vida.