terça-feira, 6 de março de 2012

O meu olhar


Ilustração rápida feita para um projeto que iniciará nesta semana em uma das escolas em que trabalho.

O desenho foi a parte fácil. O difícil foi reproduzi-lo sozinho em uma escala bem maior que o original no moleskine, mais ou menos 1,8 x 2,5 metros, eu acho.

A ideia era fazer um desenho que simbolizasse a construção do futuro aliando a tecnologia à natureza a partir do estudo e da leitura. Mas como o texto ainda não tinha sido escolhido, eu coloquei por minha conta (apenas no meu desenho e aqui no blog) um poema de minha escolha, de Alberto Caeiro, um heterônimo de Fernando Pessoa.


No sketchbook eu não consegui escrever o poema inteiro por conta do tamanho da página, mas abaixo ele pode ser lido na íntegra (muito bom, diga-se de passagem).


O meu olhar é nítido como um girassol.
Tenho o costume de andar pelas estradas
Olhando para a direita e para a esquerda,
E de vez em quando olhando para trás...
E o que vejo a cada momento
É aquilo que nunca antes eu tinha visto,
E eu sei dar por isso muito bem...
Sei ter o pasmo essencial
Que tem uma criança se, ao nascer,
Reparasse que nascera deveras...
Sinto-me nascido a cada momento
Para a eterna novidade do Mundo...

Creio no mundo como num malmequer,
Porque o vejo. Mas não penso nele
Porque pensar é não compreender...

O Mundo não se fez para pensarmos nele
(Pensar é estar doente dos olhos)
Mas para olharmos para ele e estarmos de acordo...

Eu não tenho filosofia: tenho sentidos...
Se falo na Natureza não é porque saiba o que ela é,
Mas porque a amo, e amo-a por isso,
Porque quem ama nunca sabe o que ama
Nem sabe por que ama, nem o que é amar...
Amar é a eterna inocência,
E a única inocência não pensar...

Alberto Caeiro, "II - O Meu Olhar".