segunda-feira, 9 de janeiro de 2012

2,5 mg de diazepam

"Sem título", nanquim e acrílica sobre moleskine.

Este, para mim, foi um trabalho totalmente inusitado, terminando muito diferente - e muito depois - do planejado.

Não era para ocupar duas páginas, para ter cor e muito menos para apresentar qualquer elemento que fugisse de um simples autorretrato. Eu comecei desenhando e, ao passar a caneta nanquim por cima do grafite, descobri o que eu não queria ter descoberto: eu não estava ali!

Bom, eu acho que o olhar e a parte da boca e do queixo até lembram um pouco as minhas feições, mas eu achei o desenho péssimo e a minha vontade depois de vê-lo pronto foi de rasgar e começar tudo de novo. Entretanto, fazer isto com um sketchbook costurado é quase impossível por dois motivos: primeiro, porque isso altera a constituição do caderno, podendo soltar uma página já trabalhada; e depois, porque, neste caso, se trata de um Moleskine (mesmo não tendo sido feito por mim e não sendo tão pessoal, só o fato de ser um Moleskine já dispensa comentários...).

Mas além disso, há também o fato do artista ter de se acostumar com seus erros e aprender a contornar e aproveitar cada falha de uma maneira positiva. Assim sendo, este desenho ficou dias parado no caderno, e enquanto eu estava puto com ele – ou comigo mesmo –, o sketchbook ficou fechado e isolado na estante, esperando o momento em que eu decidisse o que iria fazer. Então, certo dia eu estava olhando um livro “monstro” sobre emergências médicas – que comprei em um sebo (por um valor irrisório) para recortar ou desenhar diretamente em suas páginas –, e encontrei essas imagens que achei bem interessantes.

Alguns dos recortes me atraíram primeiramente pelo apelo estético. Mas outros eu achei interessante à relação entre a imagem e a legenda. No que foi colado na parte inferior do rosto, a legenda eu coloquei na vertical e diz o seguinte:

Fig. 23.1 EEG [eletroencefalografia] apresentando descargas espiculares generalizadas, notando-se a normalização do traçado após 20 segundos de injeção de 2,5 mg de diazepam IV.

Neste momento, sim, eu achei que o trabalho fez todo sentido, porque pesquisando sobre o fármaco citado, descobri que, basicamente, ele é usado como tranquilizante. No meu caso, eu precisei de vários dias de distanciamento para poder pensar no desenho com serenidade e para olhá-lo sem nenhum pesar ou ar de reprovação. No entanto, se eu tivesse uma ampola de diazepam em casa, talvez esse tempo de espera tivesse sido bem mais curto. (Hum, vou pensar melhor na ideia...).

Brincadeiras a parte, depois de coladas as imagens a conclusão do trabalho foi quase que imediata, e o resultado, mesmo eu não tendo ficado completamente satisfeito, bem melhor do que a primeira tentativa.