sábado, 14 de janeiro de 2012

Em processo: descorticação orbital (parte 1)

Nesta terceira xilogravura da série que produzi há pouco tempo, a temática continuou a mesma, o que não é novidade, mas a matriz foi diferente.

Nas últimas duas xilos, eu trabalhei com cedrana e utilizei os dois lados da mesma madeira, como já disse. Percebi, então, que ela é bastante rígida, com muitos veios escuros que mudam a rota da goiva durante a gravação e, por isso, certos detalhes muito pequenos necessitam de uma precisão absurda para serem alcançados. E mesmo assim, de vez em quando, a ferramenta segue a fibra da madeira e o detalhe que se queria, já era...

Desta vez, a matriz foi de cedro, uma madeira mais nobre, mais “macia” (este não é bem o termo, mas na falta de um melhor, vai este mesmo), com fibras mais suaves e com menos contraste entre elas e a cor da madeira, o que possibilita um desenho mais limpo, apesar de sua cor mais escura se comparada a cedrana. Abaixo, uma foto do prancha de cedro ainda antes de ser lixada.


Neste trabalho, eu não fiz nenhum estudo prévio para a imagem a ser gravada. Contrariando tudo o que aprendi, peguei o lápis e, partindo de uma foto qualquer encontrada no meu banco de dados – ou de imagens –, esbocei diretamente na matriz. O problema de se fazer isso é que se o trabalho for muito delicado, o próprio traço do lápis pode danificar a superfície deixando algum baixo-relevo indesejado, pois para ser riscado o grafite necessita ser pressionado sobre a superfície. Por isso, desenhei com um lápis bem macio (8B, se não me falha a memória) e, posteriormente, cobri o desenho com uma caneta de ponta porosa, como mostra a imagem abaixo.


A caneta de ponta porosa é um tipo de caneta semelhante à hidrocor (ou canetinha, como é mais conhecida), em que não é necessário fazer pressão no ato do desenho. Neste caso, a caneta que eu usei foi a base de álcool, ao contrário da hidrocor que, como o nome já sugere, é a base d’água. A vantagem dela é evitar que o desenho borre ou saia na mão durante o processo de gravação, o que não é nada divertido.

Eu cobri as linhas principais com uma caneta escura e com uma caneta vermelha delimitei o espaço aonde queria o desenho chapado. O certo seria cobrir com a caneta preta toda a área que não seria gravada, como se já estivesse passando a tinta para a impressão. Como mostrado acima, é totalmente desaconselhável, pois torna-se mais complicado o entendimento do desenho, além de aumentar a chance de erros no momento da subtração com as goivas. Como a madeira não permite erros, cortar no lugar errado é sinônimo de mais trabalho para modificar toda a gravação no meio do processo.

Na próxima postagem eu falarei um pouco mais da escolha do desenho, mostrarei a matriz entintada e a finalização do processo com a cópia impressa.