sexta-feira, 7 de outubro de 2011

Eu

Há alguns dias eu vi uma imagem na capa de uma revista que achei interessante: uma mulher do Oriente Médio – não sei de qual país – com uma burca que cobria até mesmo sua sobrancelha.
Como gostei da imagem e estava com um sketchbook a mão, desenhei-a rapidamente sem muitos detalhes em uma página com algumas manchas de spray .

Este é um tema que sempre me atraiu por tratar de questões muito delicadas, como a liberdade de expressão, a ascensão e permanência de sociedades patriarcais, a repressão sofrida por tantas mulheres, etc. Isto sem falar das guerras geradas pela interferência dos países capitalistas no sistema de governo muçulmano, o que nos leva a algumas perguntas inevitáveis: até que ponto a lógica do Tio San é melhor do que a daqueles países? Será que podemos julgar uma cultura superior a outra? Impedindo que certas tradições sejam mantidas, não estaríamos fazendo hoje o mesmo que outrora se fez com os índios na colonização das Américas, por exemplo? E – talvez o ponto mais importante para mim – será que todas as mulheres são infelizes seguindo todas estas tradições?

Mas voltando a minha praia, mais de um mês depois de ter feito o sketh que já estava esquecido – e perdido – no meio do caderno, uma coincidência me chamou a atenção. Ou talvez nem seja tão coincidência assim. Como dizia um professor de outro semestre, pode ter sido o “deus do acaso” que agiu me apresentando, no dia de ontem, um poema da poetiza portuguesa Florbela Espanca que casou exatamente – pelo menos na minha cabeça – com desenho que eu já queria ter concluído.

Como a minha visão não consegue diferir muito da superficialidade que nós, ocidentais, geralmente temos deste assunto, acabei dando ênfase a um olhar reprimido e angustiado que sabemos que existe, mas que, creio eu, não é absoluto. E como registrei algumas imagens do processo, coloquei-as no meio do poema como uma forma de progressão das ideias, assim como acontece com as imagens mentais formadas pelas palavras na medida em que lemos cada verso, cada rima, cada estrofe.

Fica então como uma ilustração de uma poesia que comecei a figurar antes mesmo de conhecer.


Eu sou a que no mundo anda perdida,
Eu sou a que na vida não tem norte,
Sou a irmã do Sonho,e desta sorte
Sou a crucificada... a dolorida...


Sombra de névoa tênue e esvaecida,
E que o destino amargo, triste e forte,
Impele brutalmente para a morte!
Alma de luto sempre incompreendida!...


Sou aquela que passa e ninguém vê...
Sou a que chamam triste sem o ser...
Sou a que chora sem saber porquê...


Sou talvez a visão que Alguém sonhou,
Alguém que veio ao mundo pra me ver,
E que nunca na vida me encontrou!

Florbela Espanca, “Eu”.


Deus do acaso, a casa é sua.
Fique a vontade, permaneça o tempo que quiser... e volte sempre.