domingo, 16 de outubro de 2011

Pensamento da semana

“Na historia da arte, a literatura e o conhecimento cientifico tinham identificado repertórios de conteúdos que deveríamos dominar para sermos cultos no mundo moderno. Por outro lado, a antropologia e o folclore, assim como os populismos políticos, ao reivindicar o saber e as praticas tradicionais, constituíram o universo do popular. As indústrias culturais geraram um terceiro sistema de mensagens massivas do qual se ocuparam novos especialistas: comunicólogos e semiólogos.
Tanto os tradicionalistas quanto os modernizadores quiseram construir objetos puros. Os primeiros imaginaram culturas nacionais e populares “autênticas”; procuraram preservá-las da industrialização, da massificação urbana e das influências estrangeiras. Os modernizadores conceberam uma arte pela arte, um saber pelo saber, sem fronteiras territoriais, e confiaram à experimentação e à inovação autônomas suas fantasias de progresso. As diferenças entre esses campos serviram para organizar os bens e as instituições. O artesanato ia para as feiras e concursos populares, as obras de arte para os museus e as bienais.”

Néstor Garcia Canclini, em Culturas Híbridas.

sexta-feira, 14 de outubro de 2011

Em processo: voltando às origens (parte 2)

Continuando a mostrar o processo de produção da minha primeira xilogravura que está, atualmente, quase concluída.

Primeiramente, uma foto da matriz depois de gravada. Aqui, diferente da postagem anterior, já se percebe claramente as áreas que receberam a tinta a que será transferida no momento da impressão. Neste caso, a matriz já foi usada para fazer uma cópia apenas de teste e, por isso, percebe-se o preto chapado que se contrapõe ao “branco” da madeira.


No detalhe ampliado logo abaixo, é possível notar e entender com maior clareza o processo de gravação. A parte da madeira entintada em preto é exatamente a que não foi alterada desde o início do processo de gravação. Em contrapartida, os locais em que se pode ver a madeira foram os trabalhados com as goivas, tanto que eles estão mais fundos e, por isso, o rolo usado para a impressão não transferiu a tinta.
O detalhe é interessante também para perceber os veios da madeira. Alguns deles são tão evidentes que mesmo sem querer eles acabam sendo impressos.


E, por fim, a primeira cópia impressa em papel de arroz, o mais utilizado para a impressão de gravura em madeira.


Ela é chamada de Prova de Estado (P.E.) e serve justamente para que o gravador perceba se a matriz está pronta para ser impressa definitivamente ou se ainda precisa de algum retoque.
Neste caso, eu percebi alguns erros que já corrigi na matriz mostrada, mas sei que ainda falta muita prática para que eu chegue a um resultado mais próximo do meu desenho.

Resumindo: vamos trabalhar!

quinta-feira, 13 de outubro de 2011

Metal pesado

Desenho rápido em uma página meio surrada do sketchbook.

"Sem título", técnica mista sobre sketchbook, 2011.

Eu comecei, na verdade, tentando recuperar uma tinta guache preta que virou pedra dentro do pote. Depois de muito trabalho, fui experimentar a tinta e acabei pintando um rosto que ficou um pouco turvo.

Em seguida, utilizei lápis branco em algumas regiões do papel e, nas que não pegou muito bem, utilizei um pouco de pastel, já que o pigmento se fixa rapidamente, mesmo saindo com mais facilidade depois.

Como o desenho ainda estava muito embaçado, testei um grafite para definir melhor o rosto e vi que a tonalidade era bem parecida com a da tinta, já que o lápis usado contém chumbo em sua composição. Sabendo que o metal pesado não faz nada bem para a saúde e que o corpo não consegue expeli-lo naturalmente, eu fiquei um pouco cabreiro de usar este lápis depois de descobrir sua composição.

Mas como eu sei que se eu não comer o grafite - e não pretendo fazer isso por enquanto - os problemas só virão - e se vierem - depois de muito tempo, vou tentar tomar cuidado e torcer para não virar um homem de ferro em um paletó de madeira.

sexta-feira, 7 de outubro de 2011

Eu

Há alguns dias eu vi uma imagem na capa de uma revista que achei interessante: uma mulher do Oriente Médio – não sei de qual país – com uma burca que cobria até mesmo sua sobrancelha.
Como gostei da imagem e estava com um sketchbook a mão, desenhei-a rapidamente sem muitos detalhes em uma página com algumas manchas de spray .

Este é um tema que sempre me atraiu por tratar de questões muito delicadas, como a liberdade de expressão, a ascensão e permanência de sociedades patriarcais, a repressão sofrida por tantas mulheres, etc. Isto sem falar das guerras geradas pela interferência dos países capitalistas no sistema de governo muçulmano, o que nos leva a algumas perguntas inevitáveis: até que ponto a lógica do Tio San é melhor do que a daqueles países? Será que podemos julgar uma cultura superior a outra? Impedindo que certas tradições sejam mantidas, não estaríamos fazendo hoje o mesmo que outrora se fez com os índios na colonização das Américas, por exemplo? E – talvez o ponto mais importante para mim – será que todas as mulheres são infelizes seguindo todas estas tradições?

Mas voltando a minha praia, mais de um mês depois de ter feito o sketh que já estava esquecido – e perdido – no meio do caderno, uma coincidência me chamou a atenção. Ou talvez nem seja tão coincidência assim. Como dizia um professor de outro semestre, pode ter sido o “deus do acaso” que agiu me apresentando, no dia de ontem, um poema da poetiza portuguesa Florbela Espanca que casou exatamente – pelo menos na minha cabeça – com desenho que eu já queria ter concluído.

Como a minha visão não consegue diferir muito da superficialidade que nós, ocidentais, geralmente temos deste assunto, acabei dando ênfase a um olhar reprimido e angustiado que sabemos que existe, mas que, creio eu, não é absoluto. E como registrei algumas imagens do processo, coloquei-as no meio do poema como uma forma de progressão das ideias, assim como acontece com as imagens mentais formadas pelas palavras na medida em que lemos cada verso, cada rima, cada estrofe.

Fica então como uma ilustração de uma poesia que comecei a figurar antes mesmo de conhecer.


Eu sou a que no mundo anda perdida,
Eu sou a que na vida não tem norte,
Sou a irmã do Sonho,e desta sorte
Sou a crucificada... a dolorida...


Sombra de névoa tênue e esvaecida,
E que o destino amargo, triste e forte,
Impele brutalmente para a morte!
Alma de luto sempre incompreendida!...


Sou aquela que passa e ninguém vê...
Sou a que chamam triste sem o ser...
Sou a que chora sem saber porquê...


Sou talvez a visão que Alguém sonhou,
Alguém que veio ao mundo pra me ver,
E que nunca na vida me encontrou!

Florbela Espanca, “Eu”.


Deus do acaso, a casa é sua.
Fique a vontade, permaneça o tempo que quiser... e volte sempre.

terça-feira, 4 de outubro de 2011

Modelo vivo

Um pouquinho de modelo vivo para iniciar a semana que, pensando bem, já está quase na metade.

Continuo experimentando cores contrastantes. Neste caso, usei o verde e o azul que se aproximam em oposição ao ocre.


Gostei mais da segunda página, em que detalhei um pouco mais o rosto e as costas da modelo, dando ênfase à luz e a sombra e a outros detalhes, como as tatuagens.


Não lembro mais a duração das poses, mas pelo tipo de traço e pelo número de poses, creio que devem ter sido de 5 minutos, no máximo 10.

domingo, 2 de outubro de 2011

Pensamento da semana

"Costumo dizer que a arte não revela a verdadeira realidade, como sempre se diz. No meu entender, ela inventa a realidade, uma realidade outra, que só existe ali, na obra daquele artista, e vem somar-se ao nosso universo imaginário."

Ferreira Gular, em Xilo é coisa mental (texto para o catálogo da exposição "Xilográfico", de Rubem Grilo).

sábado, 1 de outubro de 2011

Um pouco de tudo

"Sem título", técnica mista sobre moleskine, 2011.

Um pouco de lápis,
Um pouco de tinta,
Um pouco de pastel,
Um pouco de carvão,
E um pouco de cor.
Há também um pouco de sanguínea,
E um pouquinho de sangue, de sentimento, de coração,
De vida e de morte.
Porque em tudo que faço pode haver um pouco de qualquer coisa,
Mas há sempre muito de mim...