segunda-feira, 15 de agosto de 2011

Procurar o quê

Nada melhor do que estrear a semana – e um moleskine – com poesia.
Poesia para arejar as ideias, para ver as horas passarem, para sonhar acordado e repousar o espírito.
E, claro, nada melhor para isso do que Drummond.
A ilustração está sempre aquém, mas o poema vale a pena.

"Procurar o quê", aquarela, nanquim e caneta
colorida sobre moleskine.


O que a gente procura muito e sempre não é isto nem aquilo. É outra coisa.

Se me perguntam que coisa é essa, não respondo, porque não é da conta de ninguém o que estou procurando.


Mesmo que quisesse responder, eu não podia. Não sei o que procuro. Deve ser por isso mesmo que procuro.


Me chamam de bobo porque vivo olhando aqui e ali, nos ninhos, nos caramujos, nas panelas, nas folhas de bananeiras, nas gretas do muro, nos espaços vazios.


Até agora não encontrei nada. Ou encontrei coisas que não eram a coisa procurada sem saber, e desejada.


Meu irmão diz que não tenho mesmo jeito, porque não sinto o prazer dos outros na água do açude, na comida, na manja, e procuro inventar um prazer que ninguém sentiu ainda.


Ele tem experiência de mato e de cidade, sabe explorar os mundos, as horas. Eu tropeço no possível, e não desisto de fazer a descoberta do que tem dentro da casca do impossível.


Um dia descubro. Vai ser fácil, existente, de pegar na mão e sentir. Não sei o que é. Não imagino forma, cor, tamanho. Nesse dia vou rir de todos.


Ou não. A coisa que me espera, não poderei mostrar a ninguém. Há de ser invisível para todo mundo, menos para mim, que de tanto procurar fiquei com merecimento de achar e direito de esconder.

Carlos Drummond de Andrade, “Procurar o quê”.


Ps: Esse título não tem interrogação, apesar de caber tal pontuação.