quinta-feira, 11 de agosto de 2011

Estudos para descorticar crianças

Quando pesquisava, no semestre passado, sobre como seriam as imagens para o trabalho de diplomação, resolvi experimentar imagens de crianças para ver o efeito que eu poderia conseguir.

No início fiquei em dúvida quanto ao impacto que elas poderiam causar. Não sabia se era muito agressivo ou apelativo, já que a minha linha de trabalho é sempre focada em três pilares: o corpo humano, o grotesco e o erotismo. Assim, quando ainda não tinha decidido trabalhar apenas com rostos, a ideia de inserir crianças no trabalho parecia quase impossível, já que representar a nudez infantil estava (e está) fora de cogitação.

Contudo, conforme a pesquisa foi se desenvolvendo, fui orientado a focar apenas na parte superior, em especial, do rosto. Assim, a possibilidade de figurar crianças ficou mais palpável e coerente com minha poética, o que me levou a fazer alguns estudos.

Como já citei em outras postagens, não compartilho as fotos em que me baseio para tais estudos por dois motivos: primeiro porque eu sempre modifico os rostos em várias áreas, já que a intenção não é a de torna-los reconhecíveis; e segundo, porque as fotos são usadas como meio de se trabalhar mais facilmente com a forma do rosto, em especial no que diz respeito à obtenção de volume pelas áreas de luz e sombra.

Fiz o comentário acima porque muitas vezes o que me leva a fazer algum desenho é a expressividade encontrada nas fotos que pesquiso pela internet, livros ou revistas. Foi este exatamente o caso dos dois estudos postados abaixo.

No primeiro deles, encontrei esta foto de uma menina linda, de olhar profundo e distante.



Fiquei horas observando o brilho do olhar, a boca pequena, o cabelo esvoaçante e o ar de tranquilidade que ela passava. Foi um desenho que gostei de todas as etapas do processo, dos primeiros traços ao resultado final. Foi a segunda criança que descortiquei e, ao contrário de alguns outros estudos, o corte aqui apresentado não seguiu um padrão de simetria.

O segundo desenho – na verdade, o terceiro que fiz - foi o que me deu a base para a criança pintada no trabalho de diplomação. Aqui, mais uma vez, o olhar foi o que me seduziu para o desenho.



É incrível a capacidade de falar sem dizer palavra nenhuma, tudo através dos olhos. Não é por acaso que esta é uma das formas de contato mais íntimo entre as pessoas. Contudo, certos olhares são tão misteriosos que nem mesmo a famosa esfinge conseguiria decifrá-los. Assim foi para mim com a criança acima.

Por mais que eu olhasse enquanto desenhava, eu não conseguia nada além de conjecturas sobre sua breve vida, sobre sua família ou sua origem. Além, claro, de milhares de suposições sobre o que se passava em sua cabeça.

Com a banalização das imagens não nos damos conta de que por trás de toda foto em que se vê um ser humano, existe um porquê, existe uma história, existe uma vida. Neste caso, porém, por mais que eu pensasse, conjecturasse e especulasse, não teria outro jeito: eu seria inevitavelmente devorado...