sexta-feira, 22 de julho de 2011

Nova parceria

Ao contrário de muitos artistas que só trabalham sozinhos, acho muito produtivo o trabalho em equipe.

Os motivos para o isolamento podem ser os mais variados possíveis, e isso é totalmente compreensível, já que cada pessoa tem um ritmo de produção, um modo de organização, formas distintas de se concentrar, etc. Isso sem falar no que complementa a atividade artística - no meu caso, a música, que vária do eletrônico ao heavy metal a todo volume.

É claro que não seria possível desenvolver a minha série de pinturas com outro artista porque se trata de um trabalho muito pessoal, subjetivo e íntimo - como o próprio nome sugere. Mas é possível sim desenvolver uma parceria de sucesso. A prova disso foi a que comecei hoje.

Meu sobrinho Felipe de 4 anos está passando uma semana de férias na minha casa. Hoje, quando cheguei da universidade, ele me perguntou o que já havia me perguntado umas duas ou três vezes durante a semana: se eu sabia desenhar aquele mascote da propaganda das Casas Bahia. Não sei o porquê, mas ele adora aquele bonequinho (tanto que, andando no shopping esta semana, ele não perdeu a oportunidade de pegar o encarte da loja. E ai de quem jogar fora...). Será que alguém apresentou para ele o famoso clássico da música popular brasileira?
"Quanta gente,
Quanta alegria,
A minha felicidade
É um crediário
Nas Casas Bahia."

Como eu acho que ele ainda não sabe o que é crediário - e espero que não saiba tão cedo -, acredito que seja por outros motivos...
 
Eu disse que não sabia fazer porque tenho minhas dúvidas quanto a desenhar ao lado de crianças, pois tenho medo de passar a impressão errônea de que existe apenas um tipo de desenho "correto". Mas ele acabou me convencendo de um jeito curioso. Enquanto estávamos conversando, ele me perguntou:
- Tio, que cor é o chapéu do bonequinho das Casas Bahia?

Eu sem lembrar muito bem, mas visualizando que era um chapéu de cangaceiro, disse:
- Eu acho que é marrom.

Então ele complementou:
- É marrom com o desenho de uma palmeira verde.

Eu fiquei tão impressionado de nunca ter percebido isso que fui conferir no encarte. E, para a minha surpresa, era exatamente assim...

Percebendo como ele gosta de desenhar, sempre que posso faço o possível para que este gosto cresça cada dia mais. Decidi, então, fazer um acordo com ele: eu faria o desenho e ele ficaria encarregado de pintá-lo.

Primeiro fiz um esboço bem rápido a lápis apenas para demarcar o personagem. Isso com ele falando: "nossa, tá muito esquisito! Se fosse eu, não desenharia ele tão grande assim na folha...".


Em seguida, peguei uma caneta hidrocor, ou melhor, uma canetinha (não precisa ser tão técnico para lidar com criança, né?!) e contornei as linhas para que ficasse mais fácil para colorir. Aí sim consegui ganhar um pouquinho de crédito com o desenho. Ele disse: "ah, agora sim tá melhor...".


Por fim, o trabalho finalizado, colorido por ele. Antes, eu havia dito para ele observar as cores para pintar tudo igualzinho, mas ele respondeu de cara me deixando mais orgulhoso: "eu não, eu vou pintar de outras cores para ficar bem colorido!".

 

Eu gostei muito do resultado, e ele também. Disse que não vai deixar ninguém tocar no desenho, mas que irá pregar na porta do quarto para todo o mundo ver. Resta saber o que a mamãe acha desta estória.

O melhor foi que enquanto eu desenhava, ia falando para ele até ele responder comigo:
- Então, Felipe, para desenhar e pintar é preciso o que?
- Ter paciência.
- E o que mais?
- Olhar bem para as coisas.

Espero que isso dê certo um dia, que o desenho se torne para ele tão essencial quanto é para mim, independente dele querer ser artista...