domingo, 16 de outubro de 2011

Pensamento da semana

“Na historia da arte, a literatura e o conhecimento cientifico tinham identificado repertórios de conteúdos que deveríamos dominar para sermos cultos no mundo moderno. Por outro lado, a antropologia e o folclore, assim como os populismos políticos, ao reivindicar o saber e as praticas tradicionais, constituíram o universo do popular. As indústrias culturais geraram um terceiro sistema de mensagens massivas do qual se ocuparam novos especialistas: comunicólogos e semiólogos.
Tanto os tradicionalistas quanto os modernizadores quiseram construir objetos puros. Os primeiros imaginaram culturas nacionais e populares “autênticas”; procuraram preservá-las da industrialização, da massificação urbana e das influências estrangeiras. Os modernizadores conceberam uma arte pela arte, um saber pelo saber, sem fronteiras territoriais, e confiaram à experimentação e à inovação autônomas suas fantasias de progresso. As diferenças entre esses campos serviram para organizar os bens e as instituições. O artesanato ia para as feiras e concursos populares, as obras de arte para os museus e as bienais.”

Néstor Garcia Canclini, em Culturas Híbridas.

sexta-feira, 14 de outubro de 2011

Em processo: voltando às origens (parte 2)

Continuando a mostrar o processo de produção da minha primeira xilogravura que está, atualmente, quase concluída.

Primeiramente, uma foto da matriz depois de gravada. Aqui, diferente da postagem anterior, já se percebe claramente as áreas que receberam a tinta a que será transferida no momento da impressão. Neste caso, a matriz já foi usada para fazer uma cópia apenas de teste e, por isso, percebe-se o preto chapado que se contrapõe ao “branco” da madeira.


No detalhe ampliado logo abaixo, é possível notar e entender com maior clareza o processo de gravação. A parte da madeira entintada em preto é exatamente a que não foi alterada desde o início do processo de gravação. Em contrapartida, os locais em que se pode ver a madeira foram os trabalhados com as goivas, tanto que eles estão mais fundos e, por isso, o rolo usado para a impressão não transferiu a tinta.
O detalhe é interessante também para perceber os veios da madeira. Alguns deles são tão evidentes que mesmo sem querer eles acabam sendo impressos.


E, por fim, a primeira cópia impressa em papel de arroz, o mais utilizado para a impressão de gravura em madeira.


Ela é chamada de Prova de Estado (P.E.) e serve justamente para que o gravador perceba se a matriz está pronta para ser impressa definitivamente ou se ainda precisa de algum retoque.
Neste caso, eu percebi alguns erros que já corrigi na matriz mostrada, mas sei que ainda falta muita prática para que eu chegue a um resultado mais próximo do meu desenho.

Resumindo: vamos trabalhar!

quinta-feira, 13 de outubro de 2011

Metal pesado

Desenho rápido em uma página meio surrada do sketchbook.

"Sem título", técnica mista sobre sketchbook, 2011.

Eu comecei, na verdade, tentando recuperar uma tinta guache preta que virou pedra dentro do pote. Depois de muito trabalho, fui experimentar a tinta e acabei pintando um rosto que ficou um pouco turvo.

Em seguida, utilizei lápis branco em algumas regiões do papel e, nas que não pegou muito bem, utilizei um pouco de pastel, já que o pigmento se fixa rapidamente, mesmo saindo com mais facilidade depois.

Como o desenho ainda estava muito embaçado, testei um grafite para definir melhor o rosto e vi que a tonalidade era bem parecida com a da tinta, já que o lápis usado contém chumbo em sua composição. Sabendo que o metal pesado não faz nada bem para a saúde e que o corpo não consegue expeli-lo naturalmente, eu fiquei um pouco cabreiro de usar este lápis depois de descobrir sua composição.

Mas como eu sei que se eu não comer o grafite - e não pretendo fazer isso por enquanto - os problemas só virão - e se vierem - depois de muito tempo, vou tentar tomar cuidado e torcer para não virar um homem de ferro em um paletó de madeira.

sexta-feira, 7 de outubro de 2011

Eu

Há alguns dias eu vi uma imagem na capa de uma revista que achei interessante: uma mulher do Oriente Médio – não sei de qual país – com uma burca que cobria até mesmo sua sobrancelha.
Como gostei da imagem e estava com um sketchbook a mão, desenhei-a rapidamente sem muitos detalhes em uma página com algumas manchas de spray .

Este é um tema que sempre me atraiu por tratar de questões muito delicadas, como a liberdade de expressão, a ascensão e permanência de sociedades patriarcais, a repressão sofrida por tantas mulheres, etc. Isto sem falar das guerras geradas pela interferência dos países capitalistas no sistema de governo muçulmano, o que nos leva a algumas perguntas inevitáveis: até que ponto a lógica do Tio San é melhor do que a daqueles países? Será que podemos julgar uma cultura superior a outra? Impedindo que certas tradições sejam mantidas, não estaríamos fazendo hoje o mesmo que outrora se fez com os índios na colonização das Américas, por exemplo? E – talvez o ponto mais importante para mim – será que todas as mulheres são infelizes seguindo todas estas tradições?

Mas voltando a minha praia, mais de um mês depois de ter feito o sketh que já estava esquecido – e perdido – no meio do caderno, uma coincidência me chamou a atenção. Ou talvez nem seja tão coincidência assim. Como dizia um professor de outro semestre, pode ter sido o “deus do acaso” que agiu me apresentando, no dia de ontem, um poema da poetiza portuguesa Florbela Espanca que casou exatamente – pelo menos na minha cabeça – com desenho que eu já queria ter concluído.

Como a minha visão não consegue diferir muito da superficialidade que nós, ocidentais, geralmente temos deste assunto, acabei dando ênfase a um olhar reprimido e angustiado que sabemos que existe, mas que, creio eu, não é absoluto. E como registrei algumas imagens do processo, coloquei-as no meio do poema como uma forma de progressão das ideias, assim como acontece com as imagens mentais formadas pelas palavras na medida em que lemos cada verso, cada rima, cada estrofe.

Fica então como uma ilustração de uma poesia que comecei a figurar antes mesmo de conhecer.


Eu sou a que no mundo anda perdida,
Eu sou a que na vida não tem norte,
Sou a irmã do Sonho,e desta sorte
Sou a crucificada... a dolorida...


Sombra de névoa tênue e esvaecida,
E que o destino amargo, triste e forte,
Impele brutalmente para a morte!
Alma de luto sempre incompreendida!...


Sou aquela que passa e ninguém vê...
Sou a que chamam triste sem o ser...
Sou a que chora sem saber porquê...


Sou talvez a visão que Alguém sonhou,
Alguém que veio ao mundo pra me ver,
E que nunca na vida me encontrou!

Florbela Espanca, “Eu”.


Deus do acaso, a casa é sua.
Fique a vontade, permaneça o tempo que quiser... e volte sempre.

terça-feira, 4 de outubro de 2011

Modelo vivo

Um pouquinho de modelo vivo para iniciar a semana que, pensando bem, já está quase na metade.

Continuo experimentando cores contrastantes. Neste caso, usei o verde e o azul que se aproximam em oposição ao ocre.


Gostei mais da segunda página, em que detalhei um pouco mais o rosto e as costas da modelo, dando ênfase à luz e a sombra e a outros detalhes, como as tatuagens.


Não lembro mais a duração das poses, mas pelo tipo de traço e pelo número de poses, creio que devem ter sido de 5 minutos, no máximo 10.

domingo, 2 de outubro de 2011

Pensamento da semana

"Costumo dizer que a arte não revela a verdadeira realidade, como sempre se diz. No meu entender, ela inventa a realidade, uma realidade outra, que só existe ali, na obra daquele artista, e vem somar-se ao nosso universo imaginário."

Ferreira Gular, em Xilo é coisa mental (texto para o catálogo da exposição "Xilográfico", de Rubem Grilo).

sábado, 1 de outubro de 2011

Um pouco de tudo

"Sem título", técnica mista sobre moleskine, 2011.

Um pouco de lápis,
Um pouco de tinta,
Um pouco de pastel,
Um pouco de carvão,
E um pouco de cor.
Há também um pouco de sanguínea,
E um pouquinho de sangue, de sentimento, de coração,
De vida e de morte.
Porque em tudo que faço pode haver um pouco de qualquer coisa,
Mas há sempre muito de mim...

sexta-feira, 30 de setembro de 2011

Em processo: voltando às origens (parte 1)

Voltar às origens.Esta é uma boa frase para se iniciar a postagem. Primeiro porque o tema é a gravura, o que se refere a um conhecimento medieval no campo artístico quase esquecido na contemporaneidade. E, segundo, porque foi uma das primeiras disciplinas que cursei na universidade.

Na época, a matéria que fiz foi Introdução a Gravura, uma disciplina que apresenta um panorama da gravura como um todo, as técnicas empregadas, os materiais necessários, os artistas mais influentes, etc. Eu até cheguei a comentar sobre o tema em duas postagens mais antigas, “Gravura: técnica medieval viva nos dias de hoje” e “Buda”, mas descrevi melhor apenas a técnica da gravação em metal. Neste semestre estou fazendo xilogravura, ou seja, apenas gravação em madeira. Assim, resolvi colocar os primeiros passos do processo que ainda está em andamento.

Mesmo quando assunto é prático, não há como fugir da teoria. Antes de mais nada, foi preciso conhecer e entender um pouco melhor sobre a matéria prima, desde o momento em que ela ainda está plantada, até quando já está cortada e pronta para ser gravada. E até nisto é preciso “tirar o escorpião do bolso”, porque seria ótimo poder pegar qualquer resto de madeira de construção para utilizar no processo. Mas, infelizmente, isto não é possível por diversos motivos: madeiras sem qualidade podem estragar as ferramentas (que também não são baratas); racham com mais facilidade, impossibilitando a impressão; dificultam o processo de gravação, tornando-o mais exaustivo e demorado; e, acima de tudo, madeiras inapropriadas aumentam a chance de acidentes, o que também não é nada interessante para o artista que pode perder o movimento parcial – ou até total – de uma das mãos.

A madeira que escolhi para começar este processo, com o qual eu não tenho muita experiência, foi a cedrana. Ela possui a vantagem de ser mais clara, facilitando a visualização do desenho, mas possui os veios um pouco escuros, o que pode se confundir com a própria imagem, além de mudar a direção do corte no momento da gravação.

Matriz para xilogravura.

Como não poderia deixar de ser, o segundo passo foi estudar e elaborar a imagem a ser gravada. O que já havia entendido na disciplina anterior é que desenho e gravura são coisas totalmente diferentes. E mais uma vez estou comprovando que isto é verdade, pois nem tudo o que se imagina e se coloca no papel pode ser feito na madeira. Deve-se desenhar já pensando no que será preciso fazer na matriz, em como cada área da imagem será gravada e até com qual ferramenta vai se trabalhar, se com o formão em formato “V”, com o formão em “U”, com as facas, etc.

Estudo para xilogravura.

Depois de feita a imagem, é preciso desenhá-la novamente na matriz, tomando cuidado para não deformá-la, pois isto também pode alterar a impressão. A grosso modo, o processo se dá mais ou menos da seguinte forma:
- desenha-se na madeira;
- com as ferramentas de corte, vai-se retirando ou subtraindo a madeira onde se desenhou, como se estivesse desenhando novamente;
- como a madeira é plana, depois de completamente gravada, passa-se tinta gráfica em toda a superfície para poder imprimir. Nos locais em que não se retirou a madeira, a tinta passará para o papel, e nos que se obteve o encavo, não;
- por fim, coloca-se o papel em cima da matriz entintada, faz-se o processo de transferência e se obtêm a imagem que foi gravada – porém, espelhada, algo semelhante ao que ocorre quando nos olhamos no espelho.

No momento, já lixei a madeira, transferi o desenho e comecei a gravar.

Processo de gravação na matriz.

A área que está rosa é apenas para eu lembrar que eu não devo alterar nada, pois a ideia é conseguir um preto mais intenso nesta região.

Quando o trabalho estiver mais adiantado – ou terminado – eu postarei outras fotos mostrando as etapas do processo até a conclusão, que é a imagem impressa.

quinta-feira, 29 de setembro de 2011

"Sem título", grafite sobre
sketchbook, 5,5 x 7,5 cm, 2011.

Sketch rápido feito há alguns dias para comemorar o fim da minha pesquisa de iniciação científica. E o que tem a ver uma coisa com a outra?

Bom, na verdade, eu estava tão cansado depois da apresentação do artigo que comemorei dormindo no ônibus. Mas como eu peguei um engarrafamento de respeito por mais de uma hora e meia, depois de um tempo meu pescoço já estava doendo e eu não consegui mais dormir. Então, quando acordei, percebi que o céu estava mais cinza do que de costume e que o ar estava visível e "cheirável" (e eu não estou falando de desodorante vencido...).

Assim, acabei fazendo o desenho acima sem nenhuma pretensão, em mais ou menos 15 minutos e sem alterações posteriores.

quarta-feira, 28 de setembro de 2011

O milagre da vida

Minha sobrinha Letícia nasceu na quinta-feira passada, dia 22 de setembro de 2011, às 17h40, com 3,570 kg e 51 cm. E para não perder a tradição, terminei agora a pouco um desenho dela com apenas algumas horas de vida.

"Letícia", pastel, carvão, sépia, sanguínea e grafite sobre sketchbook, 2011.

Por conta do horário do parto, eu só pude vê-la na sexta-feira. Eu saí da universidade direto para a maternidade. O que achei interessante foi a coincidência que me fez refletir sobre diversas coisas.

Eu havia acabado de assistir a uma aula de anatomia onde passei duas horas na presença de três cadáveres – eu até cheguei a desenhar um deles sem muitas pretensões e me surpreendi com o resultado. Mas, de fato, o que não saía da minha cabeça era a seguinte questão: o que nos torna diferente de qualquer outro ser vivo do planeta?

Segundo o viés religioso, a alma seria a resposta. Mas, independe de qualquer crença, não se pode negar que a nossa capacidade intelectual é o fator que nos diferencia. Nossas estruturas internas, como órgãos, músculos e ossos são semelhantes à de vários animais. No momento em que se percebe a ausência de vida, todos são apenas matéria e nada mais.

Mas ao chegar ao hospital, a sensação foi totalmente oposta, a pesar das diversas semelhanças. Ali a vida era o mais importante: tão linda, tão serena e, ao mesmo tempo, tão frágil. Vendo e convivendo com a vida e morte, tudo parece ter um novo sentido, e algumas perguntas se tornam inevitáveis: estamos realmente preparados para o futuro? Fizemos tudo o que queríamos e o que devíamos ter feito? Lutamos, acreditamos, desejamos e realizamos nossos sonhos? E, acima de tudo, fomos capazes de amar mais do que a nós mesmos? Amar mais do que os nossos medos, receios e egoísmo nos permite?

Mesmo sendo as perguntas o motor do mundo, há certas ocasiões em que buscar respostas é necessário, mesmo que algumas delas sejam um eterno mistério.

A única certeza é que assim é a nossa existência, cheia de começos e recomeços. E enquanto uns estão partindo, outros estão chegando. Não para substituir ninguém, mas para se completar o ciclo terreno e permitir que se renove, a todo instante, o milagre da vida.

domingo, 4 de setembro de 2011

Pensamento da semana

"Ao desenhar, você recorrerá a uma parte de seu cérebro que é quase sempre obscurecida pelos detalhes do cotidiano. A partir desta experiência, você desenvolverá a capacidade de perceber as coisas, sob uma nova ótica, em sua totalidade, a enxergar padrões subjacentes e possibilidades de novas combinações. Novas modalidades de raciocínio e novas maneiras de utilizar todo poder do seu cérebro lhe propiciarão acesso a soluções criativas para os seus problemas, sejam eles pessoais ou profissionais.
O ato de desenhar, embora prazeroso e gratificante, é apenas uma chave para abrir as portas de outras metas."

Betty Edwards, em Desenhando com o lado direito do cérebro.

sexta-feira, 2 de setembro de 2011

Pavilhão João Calmon

Aproveitando o horário de almoço sem almoço na UnB, passei perto de um dos prédios da ala norte e, como estava armado com dois sketchbooks e meu estojo de materiais, resolvi desenhá-lo em uma visão um pouco distante.

Primeiramente, fiz um sketch rápido no local com lápis 2H, quase imperceptível, apenas para demarcar o desenho sem forçar demais o papel.


Já em casa, redesenhei-o com caneta nanquim, corrigindo alguns detalhes e melhorando outros, sem, no entanto, buscar um traço muito preciso, já que o que pretendia era este desenho mais rápido. Por isso, podem-se perceber claramente alguns erros de perspectiva, assim como erros na própria espessura da linha. O que está mais atrás deveria ter um traço mais delicado e suave, de modo que ele se perdesse na profundidade da imagem, o que não acontece.


E, por fim, adicionei a aquarela apenas em alguns pontos para dar um efeito que gosto muito, apesar de não usar com frequência.

"Pavilhão João Calmon", nanquim e aquarela sobre sketchbook artesanal, 2011.

Escolhi apenas o céu, as nuvens e as áreas verdes da grama para pintar. O verde, inclusive, ficou propositadamente diferente na região anterior da imagem, pois ali não é bem um gramado. Está mais para um matinho sem graça e com muita terra, cheia de falhas que mostram as áreas pelas quais as pessoas mais cortam caminho.

Eu continuo achando a hora do almoço uma hora sagrada. Por isso, mesmo eu não tendo gastado muito tempo para desenhar neste horário, espero que a greve acabe e o restaurante universitário ainda abra um dia. Afinal, carregar todo o meu material exige muita energia: o que começa pesando mais ou menos 1 kg dentro da mochila no início do dia, no final parece pesar 10 vezes mais! Haja coluna...

terça-feira, 30 de agosto de 2011

Modelo vivo


Um pouco mais de modelo vivo.

Desta vez, três poses de 15 minutos com lápis de cor no caderno artesanal tamanho A3.

Decidi praticar com cores para sair do padrão do grafite. Aos poucos, irei testando outros materiais, incluindo aquarela, que, provavelmente, será feito sem nenhum esboço prévio por conta das poses que são muito rápidas (pelo menos em se tratando de tinta).

Meu objetivo é concluir o caderno com as aulas de modelo e de anatomia até o final do semestre.
Pelos meus cálculos, faltam aproximadamente 70 páginas.
Portanto, como sempre se diz nas aulas de desenho, tenho que soltar o braço...

quinta-feira, 25 de agosto de 2011

Multifocal (ou quase)

Sketch rápido - mais ou menos 15 minutos - feito hoje no meio de uma aula.
Nenhum tema específico, apenas para passar o tempo.

"Sem título, grafite sobre sketchbook artesanal, 2011.


O engraçado é que eu até estava até prestando atenção quando comecei a desenhar. Como a aula era de psicologia e o assunto era educação, estávamos discutindo sobre os métodos de ensino e como os alunos tem meios diferentes de assimilar os conteúdos.

Então, em um dado momento, a professora disse: "...mas é assim mesmo, né, gente, às vezes a gente acha que os alunos não estão prestando atenção, estão fazendo alguma outra coisa, de cabeça baixa... Mas quando eles participam a gente vê que eles entenderam a matéria de alguma forma."

Eu não sei se isso era só para mim, ou se significava algo positivo ou negativo.
Por via das dúvidas, fiz o que era mais sensato: continuei desenhando até terminar.

segunda-feira, 22 de agosto de 2011

Estudo para gravura (ou não)

Estudo feito neste final de semana.

Inicialmente, a ideia era pensar em alguma coisa para uma futura xilogravura, mas, quando percebi, o desenho já estava com muitas hachuras que não seriam impossíveis, mas seriam muito difíceis de serem feitas na madeira.


A solução encontrada, pelo menos para facilitar o trabalho, pode estar em fazer o desenho com caneta preta para alcançar maior contraste entre o preto e o branco, e evitar as massas de grafite.

Seja como for, vale para não perder o hábito e para não passar em branco.

domingo, 21 de agosto de 2011

Pensamento da semana


“Hoje em dia se enfatiza de tal modo o caráter expressivo inerente ao fazer-artístico, que o lado comunicativo da arte-linguagem fica relegado a um plano secundário. A arte parece ser, aos olhos da maioria, apenas uma espécie de autoterapia, uma maneira de cada um descarregar seus sentimentos pessoais, numa atitude de subjetivismo que nos últimos anos chegou as raias de um exibicionismo mórbido (impingindo aos espectadores a condição de voyeurs). E este subjetivismo reinante é projetado para o passado, como se em todas as épocas e culturas prevalecessem as condições atuais do mundo ocidental, e os artesãos e artistas não tivessem tido outra preocupação senão a de falar eternamente de si mesmos, de um “eu” que nunca existira antes nestas dimensões narcisistas ou, na verdade, nesta noção do individuo isolado da coletividade: cada um por si e contra todos. Outrossim, acrescenta-se o fato grave de, em nossa época, a arte ter sido praticamente destituída de qualquer função social. Os artistas parecem existir unicamente para produzirem uma mercadoria de luxo, supérflua quando não dispensável, trabalhando para um mercado chamado “livre”, no qual, aliás, cabe a eles ainda a tarefa de criarem uma demanda para suas produções artísticas.”

Fayga Ostrower, em Acasos e criação artística.

quinta-feira, 18 de agosto de 2011

Modelo vivo

Voltando a desenhar modelo vivo depois de algum tempo parado.

Nada muito detalhado, já que eram podes de 5 minutos.


O essencial era sintetizar a estrutura geral do tronco, o movimento do corpo e os pontos de apoio/tensão.


Esta é uma prática fundamental para o artista que trabalha com figura humana.
Mesmo a fotografia sendo um recurso válido e importante, os benefícios de tal exercício proporciona vai muito além dos resultados.

Reza a lenda que o grande pintor espanhol Goya (1746-1828) disse que um artista, vendo um homem cair de uma janela no terceiro andar de um edifício, deve ser capaz de concluir um desenho desse homem no momento em que ele atinge o chão.
Depois que li isto, nada me restou a fazer, a não ser me calar... e desenhar.

terça-feira, 16 de agosto de 2011

Novas experiências

Como sempre, continuo buscando novas maneiras de representar graficamente a temática que venho trabalhando.
Dessa vez, fiz uma experiência com nanquim, aquarela e guache.

A primeira etapa, o desenho apenas em nanquim.


A segunda, a inserção da aquarela em apenas alguns pontos, como a parte do crânio evidente, os lábios e o olho que restou.


E, por último, o peso da guache no cabelo e nas manchas cor de terra.

"Sem título", nanquim, aquarela e guache
sobre moleskine, 2011.

Eu ainda não me acostumei a trabalhar com tinta guache. Em tese, guache e aquarela são muito semelhantes, mas para mim, a primeira quando toca o papel parece fora de controle. Mas não tem problema.
É apenas um motivo a mais para continuar experimentando e exercitando. Uma hora tem que dar certo.

segunda-feira, 15 de agosto de 2011

Procurar o quê

Nada melhor do que estrear a semana – e um moleskine – com poesia.
Poesia para arejar as ideias, para ver as horas passarem, para sonhar acordado e repousar o espírito.
E, claro, nada melhor para isso do que Drummond.
A ilustração está sempre aquém, mas o poema vale a pena.

"Procurar o quê", aquarela, nanquim e caneta
colorida sobre moleskine.


O que a gente procura muito e sempre não é isto nem aquilo. É outra coisa.

Se me perguntam que coisa é essa, não respondo, porque não é da conta de ninguém o que estou procurando.


Mesmo que quisesse responder, eu não podia. Não sei o que procuro. Deve ser por isso mesmo que procuro.


Me chamam de bobo porque vivo olhando aqui e ali, nos ninhos, nos caramujos, nas panelas, nas folhas de bananeiras, nas gretas do muro, nos espaços vazios.


Até agora não encontrei nada. Ou encontrei coisas que não eram a coisa procurada sem saber, e desejada.


Meu irmão diz que não tenho mesmo jeito, porque não sinto o prazer dos outros na água do açude, na comida, na manja, e procuro inventar um prazer que ninguém sentiu ainda.


Ele tem experiência de mato e de cidade, sabe explorar os mundos, as horas. Eu tropeço no possível, e não desisto de fazer a descoberta do que tem dentro da casca do impossível.


Um dia descubro. Vai ser fácil, existente, de pegar na mão e sentir. Não sei o que é. Não imagino forma, cor, tamanho. Nesse dia vou rir de todos.


Ou não. A coisa que me espera, não poderei mostrar a ninguém. Há de ser invisível para todo mundo, menos para mim, que de tanto procurar fiquei com merecimento de achar e direito de esconder.

Carlos Drummond de Andrade, “Procurar o quê”.


Ps: Esse título não tem interrogação, apesar de caber tal pontuação.

domingo, 14 de agosto de 2011

Pensamento da semana


“Da mesma forma que um texto literário denota as qualidades, o domínio da escrita e a criatividade do autor/escritor, proporcionando prazer nessa relação íntima com a palavra escrita e o modo como a interpretamos de acordo com as nossas vivências pessoais, uma ilustração bem conseguida, pelo domínio da linguagem plástica, pela imaginação, fantasia, criatividade e originalidade do autor/ilustrador, vai certamente produzir o mesmo tipo de fruição estética em nível visual.”

Teresa Lima, em O que é qualidade em ilustração no livro infantil e juvenil – com a palavra o ilustrador.

sábado, 13 de agosto de 2011

Cachoeira do Abade


Desenho rápido – e um passo a passo – de um local lindo: a cachoeira do Abade, em Pirenópolis, Goiás.

Colagem da bilhete de entrada e esboço inicial do desenho em grafite.

Situada a lesta da cidade, a cachoeira situa-se na fazenda Cabaçais. Depois de uma pequena trilha passando por um poço e por uma pequena ponte, chega-se a cachoeira que possui uma queda de 22 metros de altura.

Pintura do bilhete para facilitar a pintura.

Apesar da altura, é quase possível ficar embaixo da queda, já que a água não vem de um local muito inclinado.

Primeira camada de tinta.

Há ainda uma pequena “prainha” em que é possível deitar, olhar para o céu, escutar o som dos pássaros e o barulho das águas.

"Cachoeira do Abade", aquarela, guache e colagem sobre sketchbook, 2011.

Enfim, este é um local histórico, assim como toda a cidade de Pirenópolis, que vale a pena ser colocado no roteiro de viagem.