sexta-feira, 7 de agosto de 2009

Sopro Divino - Escultura cinética



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Esse foi um trabalho desenvolvido para a disciplina Escultura 1, no segundo semestre de 2008.
Foi um tipo de exercício interessante, do qual eu gosto muito: começar sem saber aonde vai terminar. O melhor nesse tipo de trabalho é deixar as idéias fluírem. É como uma reação em cadeia. A partir de um insight, ou seja, de um momento em que algo se torna claro, mesmo sem motivo aparente, a primeira peça do dominó é derrubada. Logo cai a segunda, a terceira, a quarta, e assim sucessivamente.

Primeiramente, quis fazer uma relação com o corpo humano – para relacionar também com a outra escultura feita para a mesma disciplina. Para ajudar o meio ambiente (hum, só se for mesmo...) utilizei sucata de computador como base para todo o projeto. A partir daí, tudo que era cacareco passou a ser motivo escultórico. Virei catador de lixo, ou melhor, de matéria prima reaproveitável. A gente faz um bem pra natureza e mesmo assim vira motivo de piada perante os amigos. Tudo que eles viam na rua falavam para eu levar para casa. Mas é assim mesmo. Faz parte do trabalho sujo.


O meu quarteliê ficou uma zona só por quase 2 meses. Ninguém podia entrar, muito menos tocar em alguma coisa. Na falta de mesa, eu fui acumulando a matéria prima no chão. O bom é que não tinha aquela preocupação de sujar as peças, já que elas é que sujavam o ambiente.


É sempre importante lembrar que é bom se vacinar, tomar anti-tetânica antes de se começar a mexer com esses materiais. Só pra não perder a mão mesmo, nada demais...


O nome da escultura e, consequentemente, o insight da obra, veio quando arranjei um liquidificador velho que ainda funcionava. “Sopro Divino” era uma expressão usada na Idade Média para explicar uma parte do surgimento da criação humana. Segundo o que se acreditava, no momento do nascimento, Deus soprava nos pulmões do homem e, nesse instante, a vida surgia. Na verdade, naquele momento conturbado pelas novas idéias do Iluminismo, com o surgimento de especulações sobre o surgimento do homem e sobre o funcionamento do corpo, a crença religiosa obrigava as pessoas a acreditarem em explicações que hoje parecem absurdas, mas que na época, não faziam menos sentido do que uma explicação científica primitiva.

O intuito foi fazer essa mistura da tecnologia com uma idéia tão antiga. O motor do liquidificador, colocado no centro da escultura, representa o coração. E, sendo esta uma escultura cinética, há um botão nela que faz este “coração” funcionar. Ao se deparar com ele, o próprio espectador pode dar a vida, pode “soprar” para que tal tecnologia funcione. E não é esse mesmo o pensamento humano desde sempre, querer “brincar” de ser Deus, querer que as coisas funcionem apenas sobre o seu domínio? Há ainda outra crítica, que diz respeito a efemeridade que tudo passou a ter com o “bum” tecnológico: produtos que foram criados há menos de 10 anos hoje são considerados sucata, já são descartados. E o que fazer com esse lixo todo? E quanto ao ser, será que ele também não é descartado como essa tecnologia quando vai envelhecendo, quando é menos favorecido, quando é minoria em nossa sociedade “democrática”, “laica” e “igualitária”?

O resultado final pode ser observado nas imagens abaixo.





Há também esse pequeno vídeo mostrando ela em funcionamento.


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